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A água em nós

Estou aprendendo a nadar golfinho (o antigo borboleta). Talvez porque eu precise melhorar o meu condicionamento físico, talvez porque meu noivo foi campeão na modalidade e quero deixá-lo orgulhoso. Quantas intenções existem por trás de um único gesto?

A primeira coisa que aprendi foi não lutar contra a água, mas usar seu movimento a meu favor. As ondulações que o estilo exige tornam-se muito mais fáceis e agradáveis quando me permito acompanhar a própria ondulação da água. Técnica e sensibilidade para encaixar os movimentos no momento correto. A força bruta deixo para aqueles que ainda acreditam ser possível dominar a natureza.

Mesmo dentro de uma piscina curta e rasa, me rendo ao poder da água. Ela me ensina a ser flexível, a superar meus limites e concentrar minhas forças no aperfeiçoamento dos movimentos. Ela me faz mergulhar no meu interior e enfrentar minhas ondas de insegurança.

Num dia quente como hoje em São Paulo, recorro à minha mestra água, que além de tudo o que me ensina, ainda me acaricia, refresca e revigora o meu humor.  Esteja ela espalhada pelo oceano, concentrada em uma piscina do SESC ou caindo incessantemente pelo meu chuveiro.

Mestres e discípulos

A moça chegou à cidade e descobriu seu mestre. Passou a partir daquele momento, a ter contrações de alegria toda vez que o encontrava. Sentia vontade de perguntar tantas coisas sobre a vida, mas tinha medo de incomodá-lo. Tinha medo de falar bobagem, tinha medo de não agradar. Tinha medo de tanta coisa… E quando se deu conta disso, deu seu salto mais ousado: passou a tratar a ele e a todas as outras pessoas com a mesma espontaneidade, já que em essência, eram todos iguais.

Um dia, olhando novamente para seu mestre, feliz por ser sua discípula, percebeu nele um singelo sorriso no olhar. Humildemente ele lhe demonstrava que lhe era grato por tê-la servido durante um período. No papel de mestre, não lhe cabia outra coisa a não ser servir.

Muitos mestres já haviam passado pelo caminho da moça, alguns deles  disfarçados de completos desconhecidos. Porque sabendo ela ou não, estava destinada por escolha própria a ter o privilégio de ser uma eterna aprendiz.