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Crônica de Natal

Tarde de sol, família reunida debaixo do toldo entre as árvores. Primos, tios, avós, irmãos, pais e mães se preparam para almoçar o resto da ceia de ontem, bem como o churrasco do dia.

Entre nuvens e mormaço, os presentes se revezam na piscina de plástico e nas cadeiras de praia espalhadas pelo jardim. Os homens falam de futebol, cerveja nas mãos e largas risadas que ultrapassam os muros da vizinhança. As mulheres trocam histórias de partos e se encantam com as gargalhadas da mais recém chegada à família. Olhos azuis, um milhão de dobrinhas pelo corpo e bochechas gorduchas assim como a mãe. Dentre as várias mulheres, uma se prepara para em breve também virar mãe. Sonha com o dia em que terá a filha nos braços e olha ao redor procurando semelhanças entre os familiares: os meus olhos, o cabelo do pai, a altura das tias…

Aos poucos, um a um vai desaparecendo, procurando um canto para tirar uma soneca e aliviar o excesso de bebida e carne. O silêncio paira no ar, até que o filho-marido-irmão-neto-primo talentoso saca o violão e inunda o ouvido dos poucos presentes com músicas dos Beatles, MPB e de autoria própria. Os cachorros desistem da perseguição e acomodam-se ao redor do violão.

A esposa do músico, mãe da menina que ainda nem nasceu, canta com o marido uma de suas várias canções e lembra-se da primeira em vez que a ouviu. Tinham acabado de se conhecer mais profundamente. Tinham acabado de dizer para o universo que sim, que se aceitavam mutuamente como companheiros de jornada, primeiramente namorados, e quem sabe um dia, marido e mulher.

Ao final da canção a esposa deseja de todo o seu coração fazer daquele um momento mais lindo ainda e, não sabendo tocar um acorde sequer, resolve pegar o instrumento que realmente domina. Pega emprestado do sogro o notebook, coloca no colo e escreve uma crônica de Natal enquanto o marido segue tocando seu violão.

A vida não poderia ser melhor.

Frustrações…

nascer_do_sol

Que bom seria se tudo acontecesse do jeito que queremos. Ou não? Como aprenderíamos algo se ninguém nos mostrasse um ponto de vista além da nossa percepção?

Ouvir algo que não se gosta e ficar triste é fácil. Querer que o mundo se adeque as nossas regras e ficar irritado se isso não acontece é fácil. Choramingar se as pessoas não são como esperamos é fácil. É muito fácil… pra mim. Difícil é aceitar que todas essas experiências fazem parte do meu crescimento e que a compreensão delas me transforma numa pessoa melhor e mais madura.

Eu disse difícil e não impossível. É por isso que resolvi levantar da cama às 2 da manhã para deixar as frustrações do passado no dia de ontem. Quando acordar, Deus me presenteará com um novo dia cheio de possibilidades. Não posso desperdiçar tal privilégio…

Ano Novo

pomba

 

Hoje é um dia especial para a humanidade e já que sou humana, também seria para mim. E é, mas por outro motivo…

 

 

“Querido Papai, hoje é mais um dia de acertar as contas e relembrar como apliquei tudo o que aprendi com o senhor durante o ano que passou.

 

2008 foi um ano fácil. Vendi o carro, mudei de casa, entrei na Pós, me formei em PNL, fiquei noiva, comecei a dar palestras e comprei uma nova samambaia.

 

2008 foi um ano difícil. Abri mão de antigas convicções, desisti de salvar o mundo, me ralei um pouco tentando andar com as próprias pernas, tive medo de ser feliz, duvidei se realmente merecia tudo o que conquistei e menti para a minha homeopata, escondendo dela os antibióticos que eu tomei pra me curar da asma.

 

2008 chegou ao fim e como em todos os outros anos, me lembro do dia 31 de dezembro em que você se foi. As cinzas do seu corpo já tomaram o Atlântico há 9 anos, mas sua lembrança continua viva e forte dentro de mim. Continuo ouvindo os seus conselhos, sentindo os seus carinhos e me perguntando como posso melhorar para me parecer mais ainda com você. E é nessas horas que me lembro que por mais amor que eu sinta, somos pessoas diferentes. O senhor com o seu caminho, eu com o meu. Fomos parceiros de jornada nos meus 23 primeiros anos. Hoje, já não posso mais me amparar nos seus braços. Agora cai uma lágrima e só. Ano Novo é tempo de alegria.

 

Te desejo tudo de maravilhoso que desejaria a qualquer pessoa que eu estivesse abraçando nesse momento. Mais que saudade, sinto ORGULHO por ser sua filha e a cada novo ano eu me esmero para fazer valer os seus anos de dedicação e apoio. Espero que esteja aprendendo tantas coisas novas aí onde está, assim como eu por aqui.

 

Vai-se o corpo físico, pequeno, e fica a grandeza da sua existência na minha vida.

 

Te amo.”

Flor de Laranjeira

laranjeira

Por duas vezes fui comparada a uma flor de laranjeira. Na última ocasião a pessoa me disse que nem todos conseguem reconhecer quando estão diante da flor ou mesmo da própria árvore. A flor é delicada, mas exótica. Simples, mas extremamente cheirosa.

Se alguns não conseguem identificar nem a árvore, quem dirá reconhecer uma laranjeira pela semente… Mesmo quando já virou muda, a única maneira de distingui-la de um limoeiro ou de um pé de mexerica, é sentindo o seu odor inconfundível de laranja. Se muda, fruta ou flor, o cheiro sempre vem da mesma essência. É interessante pensarmos que se a visão nos engana, deveríamos utilizar nossos outros sentidos, como o olfato ou o sexto.

Na ocasião da última comparação, eu pretendia experimentar a decepção de ser apenas uma laranjeira que apesar de florida, ainda começará a dar os primeiros frutos. Foi quando um sábio Lobo me fez lembrar que antes do fruto e da flor, veio o galho, antes do galho veio o tronco, antes do tronco a raiz e antes da raiz a semente. E foi aí que eu percebi que o que está pra me acontecer é apenas uma conseqüência  natural da semente que plantei e que venho cultivando nos últimos anos com muito esforço, fé e dedicação.

Mestres e discípulos

A moça chegou à cidade e descobriu seu mestre. Passou a partir daquele momento, a ter contrações de alegria toda vez que o encontrava. Sentia vontade de perguntar tantas coisas sobre a vida, mas tinha medo de incomodá-lo. Tinha medo de falar bobagem, tinha medo de não agradar. Tinha medo de tanta coisa… E quando se deu conta disso, deu seu salto mais ousado: passou a tratar a ele e a todas as outras pessoas com a mesma espontaneidade, já que em essência, eram todos iguais.

Um dia, olhando novamente para seu mestre, feliz por ser sua discípula, percebeu nele um singelo sorriso no olhar. Humildemente ele lhe demonstrava que lhe era grato por tê-la servido durante um período. No papel de mestre, não lhe cabia outra coisa a não ser servir.

Muitos mestres já haviam passado pelo caminho da moça, alguns deles  disfarçados de completos desconhecidos. Porque sabendo ela ou não, estava destinada por escolha própria a ter o privilégio de ser uma eterna aprendiz.

Mais uma do fundo do baú.

Revirando a internet (?), cai num site muito legal chamado Cronistas Reunidos, que tem uns 3 textos meus de 2001. Dá pra acreditar quanto tempo se passou e eu ensaiando pra publicar meus textos… Acabo de resgatar mais um pra quem quiser ler.

PASSEIO NO SHOPPING

Domingão. Véspera de feriado. Brasil e Argentina na TV, cervejinha gelada no refrigerador e, para completar, minha sogra viajando para o Pantanal. E eu aqui no shopping fazendo compras com a Dani. A Dani disse que o Carlinhos já está muito grande para ir no banheiro feminino com ela, e muito pequeno para ir ao masculino sozinho. Por isso eu vim, para levar o Carlinhos ao banheiro! Tudo bem, talvez daqui a uns 10 anos esse momento se repita e com sorte a minha sogra já vai ter morrido e o Carlinhos será grande o suficiente para fazer xixi sozinho. Quem mandou ter filho cedo? Pior, quem mandou engravidar a mina mais paty da facú!

Faz um século que a Dani entrou na última loja, mas nem se compara com o tempo que eu estou segurando esse menino no colo procurando um banheiro. Aposto que a Dani está comprando algum acessório preto para mim. Ele diz que preto emagrece e nunca sai de moda. Deve ser uma gravata preta, para combinar com a calça preta que ela me deu no Natal e com a camisa preta que ela me deu no meu aniversário. Mas se a Dani quer tanto que eu pareça mais magro, por que ela pediu para eu sair da academia? Primeiro ela me obrigou a ir junto, porque ela detesta fazer ginástica sozinha. Depois insistiu para eu sair. Acho que foi por causa daquela loira gostosa que vivia pedindo para eu ajudá-la com os pesos. E ainda tem marmanjo que acredita que mulher bonita gosta mesmo de músculos. Elas não resistem à uma barriguinha sexy de chope.

Isso me faz lembrar que eu também preciso mijar. Já posso quase sentir a calça úmida. Na verdade, totalmente molhada. O Carlinhos não foi homem o suficiente para esperar chegar ao banheiro. Esse menino não se parece com o pai. Se eu não tivesse certeza de que a Dani nunca me traiu, eu diria que o Carlinhos é filho do Cabeça, o cara mais babaca do time. Não tem uma partida que o cara não pede para ir ao banheiro. Aliás, cadê a porra do banheiro?

Eu já passei trocentas vezes por esse corredor e ainda não encontrei. Aposto que já virei motivo de piada para os seguranças: ” QAP Oswaldo. QAP Oswaldo. Elemento na área pela terceira vez. O idiota passou de novo na frente do banheiro” Quer saber? Perdi a vontade de ir ao banheiro, só de raiva. Ainda bem que a minha calça é preta, pelo menos disfarça a mancha, agora, o cheiro está insuportável.

Cheguei na loja onde a Dani estava e para variar levei uma bronca. A Dani adora me dar bronca na frente dos outros. Ela acha que isso sedimenta o papel da mulher moderna e põe abaixo conceitos ultrapassados de submissão feminina. Eu acho que ela devia parar de ler essas revistas da moda. Principalmente porque assim, sobraria mais dinheiro para eu tomar cerveja com a galera.

- Você é mesmo um incompetente, Carlos Henrique! Eu te trouxe no shopping só para levar o Carlinhos ao banheiro e você ainda deixa o menino fazer xixi na roupinha nova!
- A culpa é sua Dani! Quem mandou ficar na loja escolhendo presente para mim ao invés de tomar conta do menino? Tá certo que é papel da mulher cuidar bem do marido, mas também não vamos exagerar, né?
- Que presente Carlos Henrique?
- Ué, a gravata preta!
- Que gravata preta, Carlos Henrique?
- Ô Dani, eu pensei que você tivesse empacado nessa loja porque estava comprando algum presente para mim.
- Ai, ai..! Quando o meu pai disse que você era muito devagar e que eu devia ter escolhido ir morar na França ao invés de ir morar com você, eu achei que ele estava exagerando. Eu demorei porque estava escolhendo um shortinho preto para combinar com o top de suplex que eu comprei para usar na academia.

Antes de sair da loja, decepcionado, carregando uma dezena de sacolas e um garoto mijado, só tive tempo de perguntar:

- Dani, você anda pedindo ajuda para alguém na academia com os pesos?