
A moça chegou em casa às 23:37. Dia difícil. Jornada dupla para pagar as contas, suas e dos cachorros que acostumaram-se a comer ração de primeira. Queria arrancar os sapatos, arrancar a roupa, arrancar as lembranças do dia que passou…
Desceu do carro, virou-se para pegar a bolsa, o casaco, o guarda-chuva e outras tranqueiras jogadas no banco de trás, mas antes que pudesse fazer isso, foi pega de surpresa por seu marido que lhe puxou o braço e lhe chamou para dançar. Assim mesmo, no meio da garagem, em frente a casinha alugada. A música vinha do i-pod, do minúsculo fone de ouvido compartilhado pelos dois.
De começo a moça achou meio constrangedor, o que os vizinhos do prédio ao lado pensariam? Olhou para o céu sem estrelas, cheio de nuvens e nenhuma lua cheia e pensou que nada daquilo lhe inspirava romantismo. A não ser o sorriso no rosto do seu marido e o sincero desejo dele em lhe proporcionar um momento de alegria. Deixou-se levar…
Um passo para cá, dois para lá. Um tropeço aqui e outro acolá. O jovem casal rodopiava pela garagem alheio aos olhares curiosos. Pouco a pouco as luzes das janelas foram se apagando, cada vizinho buscando o sono em meio à escuridão. E se lá no alto, as pessoas iam adormecendo, lá embaixo na garagem da casinha alugada, a luz que irradiava do casal ia aumentando. A cada passo eles se sentiam mais despertos, mais vivos, mais livres, mais cúmplices.
Às vezes a vida lhes impunha dias difíceis, lhes obrigava a dançar conforme a música. Mal sabia a vida que para eles, qualquer música era desculpa para dançarem juntos…

